O Congresso Anual da FIFA foi realizado nas Ilhas Maurício na sexta-feira dia 31 de março, durante oito horas e meia. Estive preso sete destas oito horas e meia, detido e indiciado numa delegacia de polícia de Port Louis.

Dentro do congresso, os delegados da FIFA aprovavam sanções contra o racismo e a discriminação.

Fora, sindicalistas e torcedores eram presos por protestar contra a discriminação de trabalhadores migrantes no Catar, anfitrião da Copa do Mundo de 2022.

O vagaroso processo de reforma da FIFA foi descrito como um superpetroleiro mudando de direção. Para alguns de nós este superpetroleiro encalhou nas Ilhas Maurício.

"Repetir a votação, não à Copa do Mundo sem direitos para os trabalhadores, www.rerunthevote.org", comunicava pelo rádio o policial montado em sua moto.
A seguir, o ouvimos numerar a todos os que estavam segurando as três faixas da manifestação - um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.

De acordo com a lei das Ilhas Maurício, permite-se a manifestação de no máximo 12 pessoas sem a autorização policial.

Em geral, em manifestações pacíficas, a polícia chega e conta o número de manifestantes. Se este número for maior que 12, pede-se aos excedentes que se retirem, e a manifestação continua.

Desta forma, estávamos com as nossas faixas sob o sol da manhã, acenando para os ônibus que traziam os delegados da FIFA, à medida eles que entravam no centro de convenções. Muitos devolviam o aceno.

Diante de nós, os seguranças da FIFA, vestidos com os seus elegantes ternos, falavam tensamente através dos seus microfones de lapela. Assim como os seguranças de ditadores, eles estavam preocupados com o fato de a mensagem na nossa faixa não combinar com a linha política dos seus chefes.

Depois que as viaturas pararam diante de nós, foi questão de segundos até que um sargento arrancasse uma das faixas das nossas mãos e jogasse na traseira da viatura policial.

Do nada, as viaturas passaram de 2 a 20. Enquanto os homens gritavam, uma mulher e eu retiramos a faixa da traseira da viatura e a levantamos outra vez.

Por alguns momentos a manifestação continuou, antes que as detenções começassem.

As detenções não foram nada organizadas. Havia gritos em crioulo, inglês e francês. Naraindranath Gopee, presidente da Civil Service unions e ativista sindical veterano, foi arrastado por quatro policiais- cada uma segurando os seus braços e pernas.

Nossa alegre equipe de protestantes pacíficos foi amontoada dentro de um furgão. Levada embora, à medida que um comboio de VIPS da FIFA passava com suas camionetes pretas, com os vidros escurecidos, escoltado por policiais.

O Inspetor Chefe do Departamento de Investigação Criminal (CID) de Port Louis era um homem robusto, os botões em sua camisa quase arrebentando de tão esticados em seu ventre volumoso.

Falava com um suspiro, sua sexta-feira estava agora inundada de papelada inútil e dois detidos internacionais. Esta não era uma situação que o deixasse confortável.
Durante sete horas não me deixaram sair. Indiciada por formar parte de uma manifestação não autorizada com mais de 12 pessoas.

Depois do almoço, o Diretor do Ministério Público retirou as acusações, e depois de assinar uma declaração confirmando que eu não tinha nenhum hematoma e que não tinha sido maltratada, fui liberada.

A 5.000 quilômetros dali, no Catar, Zahir Belounis não é um homem livre. Atualmente, o jogador de futebol francês continua retido. Tudo o que ele, sua esposa e duas filhas precisam é de uma assinatura na sua autorização de saída para que eles possam deixar o país. Porém, a assinatura continua inalcançável.

A escravidão e discriminação que Zahir e mais de um milhão de trabalhadores migrantes enfrentam não podem passar despercebidas. Com o Catar como anfitrião da Copa do Mundo da FIFA de 2022, os direitos dos trabalhadores estão no centro das atenções.

Onde quer que a FIFA vá, estaremos lá para relembrá-la de como um país anfitrião da Copa do Mundo trata os seus trabalhadores migrantes.

Onde quer que o Catar faça os seus investimentos, estaremos lá para relembrá-lo da forma como trata os seus trabalhadores migrantes.

Faremos campanha até que todos os trabalhadores migrantes no Catar sejam liberados, até que todos os trabalhadores migrantes recebam os seus direitos.

Veja a galeria de fotos da manifestação pacífica e das detenções durante o Congresso da FIFA nas Ilhas Maurício, no dia 31 de maio de 2013.

Este artigo de opinião de Gemma Swart foi inicialmente publicado por Equal Times em 3 de junho de 2013